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27 de agosto de 2019

12 de fevereiro de 2018

nirvana

Ver um jogo do Sporting é uma experiência muito física, intensa, visceral - além de uma experiência completamente e, naturalmente, emocional, quase religiosa. O estádio é o templo, o jogo é a missa e os jogadores, os profetas. Para mim, pessoalmente, ver um jogo do Sporting é um suplício. Uma descida aos infernos. Quando me sento para ver um jogo do Sporting, o primeiro pensamento vai para o objetivo daquela experiência: a vitória, aquele extâse final de felicidade suprema, o sentimento de dever cumprido, a noção de uma semana descansada. Passar quase a totalidade dos 90 minutos nervoso, transtornado, irrequieto e a vociferar contra tudo e todos é, no entanto, a experiência normal de um adepto do Sporting. É, pelo menos, a minha. Comparo-a com uma bad trip, quando tomamos algo cujo propósito é ajudar-nos a atingir o nirvana, aqueles minutos de felicidade estúpida em estado puro e que, quando corre mal, se transforma no completo oposto, num inferno. E quando temos as autoridades atrás de nós quando estamos a ter uma experiência com drogas, aí então, acaba-se a felicidade. Foi o que estava a sentir hoje quando vi aquele golo anulado ao Doumbia pelo vídeo-árbitro. Já não bastava estar-me a sentir mal pelo jogo em si (apesar de termos entrado bem, a eficácia junto à baliza põe-me doido), tinha de vir um "polícia" ajudar à festa e tornar a viagem numa descida aos infernos da #LigaMickeyMouse portuguesa. Por um ou dois momentos, após mais uma defesa do guarda redes do Feirense ("pronto, já engatou"), julguei mesmo que estava tudo perdido e que o golo, em contra-ataque, dos gajos não tardaria para sentenciar o jogo e a nossa posição na tabela. Felizmente, William viu a luz ao fundo do túnel, ie, conseguiu meter a bola na baliza, e tudo foi diferente... Aqueles segundos depois do segundo golo, a natural confirmação da vitória, são magníficos, nirvana puro. A razão porque aceitamos sofrer tanto.


bliss


28 de janeiro de 2018

#TaçaVAR





Estive em Alvalade na final da taça UEFA em 2005. Não estive no estádio do Braga ontem à noite. Durante a manhã, creio, na SportingTV, estavam a entrevistar adeptos nortenhos do Sporting ou adeptos do Sporting nortenhos, como queiram, e bateu cá dentro ouvir um dizer qualquer coisa do tipo "Os Sportinguistas deixaram de ter vergonha de ser do Sporting [com a chegada de BdC à presidência]". A 15m do final do jogo de ontem, só pensava nos milhares de adeptos Sportinguistas que quase encheram o estádio do Braga, onde muitos deles, certamente, seria a primeira vez que voltavam a um estádio para ver o Sporting desde há muito tempo. Tinham perdido a vergonha e estavam a 15m de sofrer a humilhação de ver o Sporting perder outra #TaçaLucílio para o Vitória de Setúbal. Só pensava "Foda-se, coitados", vão ser duros os próximos dias, depois de termos ganho ao Porto, da forma épica que foi, e agora perder a Taça para o Vitória de Setúbal do Edinho - foda-se.

Não se foi karma, se foi apenas o que tinha de ser, mas houve qualquer coisa de poético ontem à noite. Termos vencido a #TaçaLucílio com a ajuda do VAR, quase 10 anos depois de termos perdido - perdão, termos sido roubados, pelo Lucílio Baptista e pelos fiscais de linha "Ferrari" de Setúbal e o infame Cardinal. Um penalty de Podstawski que eu não vislumbrei em jogo corrido e que só na repetição consegui ver que era mesmo mão do luso-polaco e não uma defesa do guarda-redes. O VAR ser tão preponderante no desenrolar do jogo da equipa cujo presidente foi o mais acérrimo defensor da sua implementação no futebol profissional. O árbitro de campo ser o mesmo que há uns meses, após recomendação do VAR, não assinalou uma grande penalidade evidente ao Sporting. O Vitória de Setúbal do Edinho que nos "fodeu" na #TaçaLucílio, na época passada. O Vitória de Setúbal que nos fez a vida negra há uma semana e pouco. O William - o William! - a bater o penalty decisivo. Receber a taça na bancada presidencial do estádio do Sporting de Braga e com o António Salvador a ver. A #TaçaLucílio mudou de nome: #TaçaVAR


O jogo. Foi assustador verificar quão importante é o Gelson nesta equipa. E mais ainda verificar a falta de velocidade, energia e poder físico da equipa. Qualquer equipa top pode dar-se ao luxo, já o escrevi aqui antes, creio, de jogar com um, no máximo, dois, jogadores que não defendem, isto é, que não façam bem pressão no adversário, assim que há perda da bola. Por exemplo, no Real Madrid, Ronaldo defende pouco e mal. Os restantes 9 jogadores têm de fazer pressão a "dobrar". O Sporting começou ontem o jogo com cinco (5) jogadores que não faziam pressão. Houve momentos na primeira parte em que parecíamos que estávamos a jogar com duas equipas, uma a atacar e outra a defender. Bruno Fernandes, Bryan Ruiz, Ruben Ribeiro (este, menos), Montero e Bas Dost são lentos e inofensivos a defender. Felizmente, não sofremos um segundo golo ainda na primeira parte, caso contrário, creio que a Taça teria ido mesmo à vida. JJ viu o mesmo, alterou a equipa ao intervalo e deu para alterar o rumo das coisas.


É também assustador verificar que este plantel foi mal construído. Não temos extremos a sério, daqueles que fintam, correm (com velocidade), cruzam e marcam golos, exceptuando Gelson. Com Gelson e Podence lesionados, não temos magia. E sem magia não há coelhos sacados da cartola.

Oxalá o karma seja mais forte que a magia.


4 de maio de 2017

A visionária "Liga Portugueza de Foot-Ball", em 1910

Com a notícia de hoje sobre o anúncio do vídeo-árbitro para a próxima época de 2017-2018, lembrei-me deste apontamento do jornal "Diário Illustrado", de 23 de fevereiro de 1910. A utilização "ilegal" de "árbitros de baliza" nos jogos da, então denominada, "Liga Portugueza de Foot-Ball". :)




17 de dezembro de 2016

O vídeo-árbitro nos jornais

O vídeo-árbitro está ser testado no Mundial de Clubes, a decorrer no Japão. Foram notícia os dois lances "polémicos" em que o VA foi utilizado. Desde aí, começou uma avalanche de opinião sobre o (futuro do) VA. Não estou por dentro do assunto "tecnicamente" mas tentei - e tento - estar atento ao aspecto "político" da coisa...

Basicamente, o grande impulsionador "político" do VA tem sido o actual presidente da FIFA, o suíço-italiano Gianni Infantini. Na vertente técnica, estão dois ex-árbitros, os reputados David Elleray, no âmbito do International Football Association Board e Massimo Bussaca, chefe dos árbitros da FIFA e que está no Japão a coordenar o VA. Infantini e Bussaca são suíços no papel mas quase italianos na prática. Há uns tempos li um livro sobre a história do futebol em Itália e percebi a importância da "moviola" na sociedade "futebolística" de Itália. A "moviola", basicamente, são as repetições de lances polémicos de jogos de futebol e que eram discutidos no domingo à noite na tv, a seguir a mais uma jornada. A "moviola" é uma instituição em Itália. Jogadores, treinadores e jornalistas "respeitam" as repetições, o vídeo e debatem os lances polémicos até à exaustão. "Prolongamento"? CMTV? "Dia Seguinte?" Já há disso em Itália há décadas. 

Os italianos, em geral, e também devido aos constantes casos de corrupção de árbitros e jogadores, são pró-VA. Querem, genuinamente, melhorar a arbitragem. Já têm árbitros de baliza desde há duas épocas, creio. O "vídeo-golo" foi introduzido esta época. Julgava que Collina, o famoso ex-árbitro e actual chefe dos árbitros da UEFA também era pró-VA mas, pelos vistos, não é. Daí que não surpreenda as palavras do actual presidente da UEFA, o esloveno Aleksander Ceferin, que disse ontem "Não estamos a pensar utilizar o VA nos próximos tempos".


UEFA anti-VA?

Li alguns jornais nestes últimos dois dias para tentar perceber qual o "ambiente" em torno do VA... eis alguns exemplos.


Em Espanha, as opiniões, desde ex-árbitros, passando por diretores de jornal e jornalistas, vão desde a desconfiança ao optimismo, mas não apanhei um jornalista que não creia que o não VA venha para ficar (seja limitando-se ao "vídeo-golo" ou abrangendo outras acções "subjectivas" dentro do campo, como penalties ou foras de jogo).

No Mundo Deportivo, de Barcelona, a opinião geral é "positiva".


Este diz que "a injustiça faz parte do futebol". Anti-VA 

"Os árbitros devem ter apoio logístico" - Pró-VA

"Como se pode duvidar de uma ferramenta que fará do futebol um desporto mais justo?" Pró-VA



Diretor adjunto do Mundo Deportivo, Miguel Rico "Trata-se de ajudar o árbitro. (...) cremos que o remédio é melhor do que a doença." "Pró-VA




Nos jornais de Madrid, há mais divisões. Desde o conservadorismo do director do AS, Alfredo Relaño, passando pelos ex-árbitros Rafa Guerrero, colaborador da MARCA e Iturralde Gonzaléz do AS, até ao pragmatismo do sub-diretor da Marca, colocam-se dúvidas sobre o VA, são até contra o VA mas todos crêem que é uma inevitabilidade.

Alfredo Relaño, diretor do AS, aprecia o VA mas quer esperar para ver. Pró-VA

Iturralde González, infame ex-árbitro espanhol e cronista do AS, é contra o VA - nota-se - mas sabe que é uma inevitabilidade. Não percebe porque foi testado numa competição importante como é o Mundial de Clubes. Pró-VA?

Rafa Guerrero, ex-árbitro e colunista da MARCA, gosta de tecnologia mas na arbitragem, não. Diz que "tem de se avançar [com a tecnologia]" mas "dando passos mais curtos e firmes". É contra mas não é. Anti-Pró-VA?
Carlos Carpio, sub-diretor da MARCA é a favor do VA "Perguntem à Irlanda sobre o assunto. Ficaram de fora do Mundial de 2010 por uma clamorosa mão de Henry." Pró-VA










Em Itália, como escrevi anteriormente, os jornalistas locais são claramente pró-VA. Na Gazzetta dello Sport, de Milão, não há dúvidas. E até lançam "farpas" a quem não quer o VA, neste caso, o Real Madrid, que, após o jogo de ontem, viu os seus jogadores (Modric e Benzema, principalmente) e treinador (Zidane) lançarem várias críticas ao modo de funcionamento do VA.


O ex-árbitro Mauro Bergonzi, critica alguns aspectos técnicos do VA mas é a favor da sua implementação. Pró-VA

"O futuro está já aqui. E é um futuro positivo: porque o penalty assinalado (...) é a prova provada de como a 'moviola' pode dar uma grande ajuda aos árbitros.", Francesco Ceniti, jornalista. Pró-VA


Pró-VA

O texto do jornalista da Gazzetta dello Sport, Luigi Garlando, é tão interessante que me dei ao trabalho de o traduzir (com imperfeições, pois não domino o italiano):



"O Real Madrid contra o VA: É sinal de que os grandes o temem

Um golo de Cristiano Ronaldo contra o Club America na meia final do Campeonato Mundial de Clubes foi validado pelo árbitro, em seguida, cancelado a partir do campo através da 'moviola' e em seguida revalidado pelo VA. O que, claro, colocou sob os holofotes da polémica algo que ainda nem sequer tinha nascido. Funciona mesmo? É realmente o dissipador de dúvida que o futebol há tanto tempo esperava? Podemos responder qualquer coisa. Aqui fazemos uma simples pergunta: por que o clube politicamente mais forte do mundo, que não foi prejudicado neste caso, lançou-se tão ferozmente contra os defeitos do VA? Bradaram Zidane (que desde 2006 tem contas a fazer com a 'moviola') e o pequeno Modric. Sem querer ser preconceituoso. Mas devia-se considerar mais um sistema de justiça que retira, o mais possível, a arbitrariedade de um individuo e que, ancorado na objectividade científica de uma imagem, protege sobretudo os mais débeis. Há uma vasta compilação de erros arbitrais, naturalmente inconscientes, que, pese embora o exagero, protegeram os grandes clubes e as grandes equipas. Com o advento do VA, é muito mais provável que começaremos a ver mais os Osasunas do mundo do que os Real Madrids do mundo. Tenhamos cuidado. O primeiro voo dos irmãos Wright durou apenas uns segundos mas hoje mais ninguém viaja no transatlântico para ir à América. Denunciemos os defeitos da 'moviola', sugiramos correções, mas dêmos-lhe tempo para experimentar e melhorar. Ter paciência é um dever, talvez mesmo um contributo para a democracia do futebol e uma justiça igual para todos."


No Tuttosport, não encontrei (ainda) muita opinião, excepto a tal informação de que o Collina não é adepto de que o árbitro de campo tenha um "árbitro étereo" a soprar-lhe no ouvido e a natural desconfiança do jornalista de Turim, Stefano Salandin, em relação ao VA...

"Em suma, é preciso cautela e diálogo senão, o futebol, em vez de unir e divertir, corre o risco de dividir" ANTI-VA?







Em França, o vídeo-árbitro ainda não "existe". Não encontrei opiniões, nem pró nem contra o VA no L'Équipe, por exemplo. Não pesquisei muito nos jornais e sites ingleses mas é de conhecimento geral que os ingleses apreciam as novas tecnologias - afinal, foram eles os grandes impulsionadores do "vídeo-golo", que já utilizam na Premier League - e este exemplo que apanhei hoje no jornal I é prova disso.


"A FIFA acertou com o vídeo-árbitro", Martin Lipton, jornalista do The Sun - pró-VA









Em Portugal, n'A BOLA ainda ninguém ainda se pronunciou a "sério" o VA, excepto Duarte Gomes. Um dos jornalistas "séniores", João Bonzinho, teve o seguinte a dizer sobre o VA:


"É incrível, não é?!" Anti-Pró-VA?



Duarte Gomes, ex-árbitro e colaborador d'A BOLA, é pró-VA








No O JOGO, o diretor José Manuel Ribeiro, é a favor do VA e Anti-BdC.


Pró-VA e Anti-BdC








Recapitulando, em Espanha e Itália, maioritariamente, a opinião é pró-vídeo-árbitro, tal como Portugal (Duarte Gomes, diretor do O JOGO...) e Inglaterra. Existem opiniões anti-VA mas nenhuma diz que ele, o vídeo-árbitro, não se acabará por impor no futebol mundial. E no Record? Sem mais comentários, Nuno Farinha, vice-diretor do jornal da COFINA.


:D





P.S. Sobre o vídeo-árbitro: quando se começou a falar disso, eu era contra. Tinha uma visão romântica da coisa (como Platini...) e, num mundo ideal, seria sempre contra o VA. Porém, nos últimos anos mudei de opinião. Acredito que o VA pode ter lugar no futebol, mediante regras e condições específicas, e que pode ajudar a melhorar as arbitragens. Agora, se até há bem pouco tempo, acreditava que o VA seria uma inevitabilidade, temo que quem mais manda no jogo - os clubes e os jogadores/treinadores - se virem contra o VA e esta experiência tenha um final desagradável. Os sinais estão aí, a começar pelo facto de a FIFA ter escolhido uma competição de visibilidade mundial para testar um sistema completamente novo e onde, probabilisticamente falando, iriam acontecer, de certeza, erros embaraçosos. O ex-árbitro espanhol Iturralde González diz que não percebe como testam o VA numa competição oficial. Seria tão absurdo como se a Ferrari testasse pneus novos num Grande Prémio, conclui. É, realmente, absurdo. 

Pior, só quando decidiram apresentar ao público o novo "Robocop", Cain, na parte final do "Robocop 2". :P