11 de outubro de 2014

Okilly-dokilly!

Nós apreciamos o conforto da continuidade, é inerente ao ser humano. "O homem é um animal de hábitos", sempre ouvi dizer.

É por isso que gostamos de chegar a casa às sete da tarde, ligar a televisão e começar a jantar ao mesmo tempo que ouvimos o Fernando Mendes a dizer "Expetáculoooo" e inclinamos a cabeça quando aparece a Lenka, sempre na esperança que seja hoje que a blusa caia e mostre mais do que apenas o preço certo da fritadeira elétrica.

A nova temporada começava sempre da mesma forma. "Este ano é que é!". Novo presidente, novo treinador, novos jogadores, "vamos ganhar", jogo no Dragão, presidente, sorridente, ao lado de Pinto da Costa, acabava o jogo, nova derrota, "Fomos roubados", vociferava o treinador. E fomos nos habituando a isto. Era normal.

O Ned Flanders é(ra) a personagem mais sportinguista dos Simpsons. O Homer enfia o carro pelo jardim adentro da casa dele e o mais áspero que ouvimos da boca do Ned é um "Okilly-dokilly!". O Homer pede emprestado o berbequim durante dez anos e quando Homer se nega a devolvê-lo, sai apenas um singelo "Hey-Diddly-Ho!" como resposta. E sorrimos sempre que tal acontece. E sentimos simpatia e pena. Estamos habituados.

Não é por nada que Os Simpsons já cá andam há vinte e tal anos.

Mas se me perguntarem qual o episódio mais marcante do Ned Flanders na série, o episódio que nunca esquecerei, vou responder aquele em que ele um dia se chateou com tanta benevolência e tanta patifaria e, finalmente, deu um murro na mesa. O episódio chama-se "Hurricane Neddy" (O furacão Neddy) e, como o título indica, foi o episódio em que o Ned se passou dos carretos, farto de ser enganado, ultrajado e enganado pelo mundo e os seus vizinhos.



eheh Ned Flanders e Breaking Bad, que combinação!


Percebo que quem estava habituado a ver o Flanders a ser humilhado constantemente pelo Homer, episódio após episódio, se sinta defraudado e não tenha gostado do episódio em que a posição quadrúpede do Flanders tenha dado lugar a uma posição mais bípede da personagem mais católica da série. Percebo perfeitamente.

Mas, se algures na oitava temporada, os produtores de Os Simpsons não têm decidido dar voz à personagem de Ned Flanders, provavelmente ele faria agora parte das personagens que já não têm voz.


De que episódio se querem lembrar daqui a vinte anos? Aquele em que morremos ou aquele em que demos um murro na mesa?


Eu sei bem qual é a minha resposta.







4 de outubro de 2014

Reabilitação

Lembro-me de uma "grande reportagem" transmitida na SIC há uns anos (2001, parece), onde um jornalista acompanhou, in loco, os cerca de quinze dias que Pedro, toxicodependente há dez anos, passou fechado num quarto a curar a "ressaca", naquele que seria o primeiro - e mais importante - passo rumo à sua desintoxicação e consequente reabilitação.

O que o Sporting fez no último ano e meio foi uma cura de "ressaca". 

Com a eleição de Godinho, julgou-se que a forma mais fácil de atingir a felicidade, o "nirvana", isto é, ser campeão nacional (ou pelo menos, chegar à Champions), seria através da "injeção" de capital dos fundos na aquisição de substâncias fortes (leia-se, jogadores "consagrados") que permitissem, de imediato, ficar com uma moca descomunal e ir celebrar para o Marquês. Ora, o que aconteceu logo nesse primeiro ano foi, precisamente, a segunda coisa que se mais teme quando se tomam drogas: uma bad trip. A primeira é uma overdose.


Se, na primeira época, aquela viagem que passou por Bilbao e terminou no Jamor com uma derrota coincidente com a primeira vitória de sempre da Académica na final da Taça de Portugal (e com Adrien e Cédric no lado dos estudantes ainda por cima...), pareceu uma bad trip, já a segunda época do Sporting de Godinho, Duque e Freitas, foi mesmo uma overdose quase fatal. Iniciou-se a época com o ecstasy de Sá Pinto, passámos para o Xanax do Oceano e Vercauteren e terminámos com o Viagra do Jesualdo Ferreira, com um Sporting ligado à máquina e colocado num sétimo lugar da lista de espera da UEFA, condenado ao esquecimento.







Felizmente, apareceu esta nova direção e que, pelo punho de Bruno de Carvalho, cravou uma seringa carregada de adrenalina bem no meio do coração do leão e injectou a necessária força vital para que o Sporting se reerguesse e rugisse de novo. 

O primeiro ano foi tão ou mais duro do que a tal reportagem do Pedro. Cortou-se metade do orçamento anual, despediu-se funcionários, jogadores e dirigentes. Pedro, durante a tal cura "de ressaca" continuou a fumar cigarros. O Sporting nem cafés bebeu na última época. Pão e água, apenas. E mesmo assim, conseguimos chegar à Liga dos Campeões.

Esta época, falta dar o passo seguinte, sair de casa e arranjar um emprego, isto é, ganhar um título. E é por isso que me faz muita confusão ler e ouvir certos Sportinguistas subscreverem e receitarem novos-velhos métodos de "cura" para este Sporting. Para esses, a cura passava por comprar dois ou três "craques" com os tais quinze milhões que o Sporting gastou esta época para comprar nove ou dez jogadores. E os ordenados? Os vícios? Quem os pagava? A mãe e o pai do Pedro que já não têm mais anéis nos dedos para vender? O clube que já não tem estádio nem terrenos para vender?

Continuando a reabilitação, candidatámos-nos a um lugar numa grande multinacional estrangeira, liderada pelo melhor executivo português do ramo. Na passada terça-feira fomos à entrevista de emprego, bem preparados, bem vestidos e muito, muito confiantes. Poderiam ocorrer duas situações:

- À medida que o tal executivo disparasse as perguntas pertinentes sobre a nossa real capacidade de corresponder às suas expectativas, entrarmos em pânico, começássemos a transpirar e bloqueássemos completamente, com a única fuga possível sendo o quarto onde iniciámos a "cura".

- À medida que o tal executivo disparasse as perguntas pertinentes sobre a nossa real capacidade de corresponder às suas expectativas, sentirmos-nos mais confiantes, começando a entrar em diálogo com o executivo, ao ponto de terminarmos a entrevista com mútuos sorrisos e cumprimentos.


Desta vez, não aconteceu nem uma nem outra. Aconteceu uma terceira hipótese, menos provável na vida de um ex-toxicodependente. O executivo deixou o seu cartão e disse: "Liga-me um dia destes." 


Dia 10 de dezembro vou-te ligar, José. Conta comigo.



26 de setembro de 2014

Porta-aviões ao fundo

"Fifa is expected to make a "significant" announcement on third party ownership (TPO) on Friday, with a ban on investment companies taking a stake in the economic rights of players believed to be under consideration.

Already banned under Premier League rules, TPO is common in Europe and South America, with investors seeking to make profits on their stake.

Manchester City's £32m purchase of Eliaquim Mangala from Porto is just one of four major deals that went through in England this summer involving TPO.

English clubs who wish to buy players co-owned by an investor and a team are already required to buy out the contract rights from all parties retaining a financial interest.

BBC Sport understands Fifa discussed the issue on Thursday, the first day of its autumn executive committee meeting in Zurich, Switzerland.

Earlier this week the Fifa players' status committee - which oversees issues around transfers - is believed to have voted in favour of recommending a ban on TPO."

Mais aqui: http://www.bbc.com/sport/0/football/29373456