10 de dezembro de 2016

Vouchers

O Sporting nunca perderá nada com a cena dos vouchers. Os vouchers é como se alguém encontrasse uma raspadinha na caixa do correio. Se raspar e encontrar prémio: duplo jackpot. Não gastou nada e ainda ganha prémio. O sonho improvável de qualquer um. A notícia de arquivamento da UEFA/LPFP/FPF da cena dos vouchers é(ra) o desfecho mais provável. Uma raspadinha sem prémio. Mas a emoção, a excitação durante aqueles segundos enquanto se raspa... nunca serão "arquivados".



Raspadinha verde... vou comprar uma destas!




A denúncia pública dos vouchers será sempre uma "vitória" para o Sporting, quanto mais não seja porque, de certeza, terá colocado os árbitros num estado de alerta, com todos os holofotes dos media apontados à classe, reduzindo a probabilidade de haver erros "grosseiros" nos jogos envolvendo Sporting e Benfica. Não tenho problemas em afirmar que a época passada, comparando com outras anteriores, até não foi muito problemática para as cores do Sporting, no que à arbitragem diz respeito.  Sim, continuamos a levar amarelos à primeira ou segunda falta cometida ou golos anulados/concedidos devido a "faltas" mínimas mas aqueles erros "grosseiros", tipo vermelhos aos cinco minutos de jogo ou penalties por mão na bola, enquanto o jogador está no chão, têm diminuído. E sim, é verdade que os lampiões não têm um erro "grosseiro" contra eles desde o golo em fora de jogo do Maicon (em 2012!!) mas também não podemos pedir tudo de uma vez, não é verdade?


Agora, podia ter sido tão melhor ... Antes de se vir a público denunciar a cena dos vouchers, tinha-se de ir à UEFA, FIFA, FPF, LFPF, etc, e enviar uma série de perguntas - sem nunca mencionar os vouchers! - tipo, "Qual o limite monetário de ofertas a árbitros?" ou "Vouchers de refeições em restaurantes, sem limite de preço, estão incluídos nas ofertas de carácter simbólico?". Ir ter com o Collina (a Sporting TV, por ex), e fazer uma entrevista "generalista" (sobre o vídeo-árbitro, novas regras, wtv) e no meio, lançar, inocentemente, a pergunta "E refeições em restaurantes para árbitros? Acha bem um clube oferecê-las?". Tanta coisa que se podia - e devia - ter feito, ANTES de BdC vir lançar a bomba...

Agora é tarde demais e depois desta notícia da UEFA ter arquivado o caso, a FPF, LPFP e PJ encontraram o alibi perfeito para também o arquivarem. Era o que eu esperava, na pior das hipóteses. Na melhor, uma multazinha qualquer mas nunca um castigo desportivo.

De referir, finalmente, que só hoje é que as televisões acharam espaço para falar sobre o caso dos vouchers nos seus jornais (a fazer lembrar a maior parte dos jornais espanhóis que só falam no #FootballLeaks quando mencionam os comunicados da Gestifute) e que, mais uma vez, a comunicação do Sporting vai a reboque de alguém. Aparentemente, esta decisão da UEFA já era conhecida (por Sporting e Benfica) desde há duas semanas mas ninguém se tinha pronunciado até que... ontem, ante-véspera do derby, o Benfica terá vazado a info para as redações do Correio da Manhã e C.ia, culminando no seu twitter oficial, com a rejubilação de uma vitória (ou "não-derrota"), dois dias antes do derby.




É confrangedor ver Nuno Saraiva, no telejornal do Sporting, a tentar rebater a info que o Benfica tinha passado para as redações dos jornais, três horas antes... tal como foi confrangedor ver Nuno Saraiva, em pleno auditório Artur Agostinho, em Alvalade, rebater as acusações de um diretor qualquer do Arouca (!), precisamente pronunciadas no mesmo local (!), minutos antes...

O Sporting que aprendi a conhecer, ataca sempre primeiro, não defende. Os outros é que se defendem.






21 de novembro de 2016

Gomorra à Portuguesa

"O maior segredo do domador de leões não é a sua coragem, é entorpecer os leões com tranquilizantes antes do espectáculo." (frase que li algures mas já não me lembro onde)




                                                                                      *SPOILER ALERT*


Apesar de, no décimo e ante-penúltimo episódio da segunda temporada da série italiana, Gomorra, Ciro Di Marzio ter renegado a (lógica) oportunidade de matar a sangue-frio a informadora Patrizia, do seu arqui-rival Pietro Savastano, justificando-se com "fantasmas" de mortos antigos assassinados por ele e que não o deixavam dormir de noite, isso não significa que Ciro seja o "bom" da fita.




Certo, são todos uns filhos da mãe, mas uns mais do que outros.



Em Gomorra, não há inocentes. São todos culpados. É isso que eu gosto na série, a ausência da típica hipocrisia que encontramos na vida real ou nas séries norte-americanas. Em Gomorra, todos roubam, todos matam, todos esfolam. O marido mata a mulher antes que esta o denuncie à polícia, o braço-direito mata o chefe a pedido do rival, o filho atraiçoa o pai antes que este faça o contrário. Na série, há 2 personagens centrais, o "democrata" Ciro Di Marzio e o "ditador" Pietro Savastano (se quisermos ser rigorosos, podemos juntar a estes o filho de Pietro, Genny Savastano e o outro rival de don Pietro e Ciro, Salvatore Conte). Ambos querem ser os donos do tráfico de droga em Secondigliano, um bairro de Nápoles. E ambos são uns filhos da mãe. Ciro matou a própria mulher no final da primeira temporada. Ciro matou a mulher de Pietro. Pietro matou a filha de Ciro. Ciro matou...


Nesta segunda temporada, com Pietro foragido da polícia, Ciro consegue juntar todos os "donos" dos quarteirões do bairro de Secondigliano e introduz um espécie de "democracia", onde todos os "donos" dos quarteirões recebem o mesmo valor pela droga vendida em cada um deles. Uma espécie de "direitos de televisão centralizados" divididos por todos igualmente.

 Por momentos, a vida em Secondigliano parece idílica. Sem mortes, sem tiros e até com brinquedos distribuídos por Gabriele, o "Príncipe", pelas crianças do bairro. Príncipe é um dos "clubes" que concordou com a ideia dos "direitos tv centralizados", idealizada por Ciro, apesar de ser o mais talentoso cortador de cocaína do bairro e que, se quisesse, poderia ganhar muito mais se trabalhasse sozinho. Todos parecem felizes, excepto Pietro Savastano.






Nostalgicamente (des)esperando pelos tempos em que reinava sozinho, "don Pietro" não vai olhar a meios para conquistar novamente Secondigliano. Através de subornos, assassinatos e ameaças, Pietro consegue destruir a "democracia" conquistada por Ciro Di Marzio de modo a conquistar de novo o "seu" bairro.

É isso que me faz lembrar a série italiana: a Liga Portuguesa de Futebol Profissional. As rivalidades, as "vendettas", as polémicas... está lá tudo. Quem não se lembra da infame reunião de clubes numa bomba de gasolina? Digno de um episódio de Gomorra. Cada quarteirão de Secondigliano é um clube da LPFP. Cada clube defende... o que "don Pietro" decidir. É por isso que a LPFP é a única "grande" Liga europeia que não tem os direitos de tv centralizados. Depois de Pietro Savastano ter mandado assassinar a filha de Ciro e conquistado de novo o bairro, parecia que o Nápoles tinha acabado de ganhar o título em casa da Juventus. Futebol é poder.


Pietro Savastano 2-1 Ciro Di Marzio




Porém, há uma enorme diferença entre Gomorra e a LFPF,  a diferença entre realidade ou ficção. E não sei qual delas é mais difícil de engolir. É que, enquanto que na série há "presidentes" de quarteirões que não têm medo de confrontar Pietro Savastano, arriscando subir de "divisão" ou ser apertado por Malamore, chefe de defesa pessoal de don Pietro, na LFPF ninguém tem tomates para confrontar "don Pietro" cá do burgo. Na série italiana, além de Ciro, há vários exemplos de "clubes" que não tiveram medo de enfrentar Pietro Savastano, mesmo que isso significasse levar um enxerto de porrada pela afronta.




Malamore, a explicar que ninguém se mete com don Pietro.






Gabriele, o "Príncipe", o eterno sonhador


"Mais vale um dia de pé do que uma vida de joelhos", é o eterno lema presente em Gomorra, apesar da sede de poder de todos os protagonistas . Em Secondigliano, o dinheiro não vale de nada se isso significar passar os dias com a boca na pila de alguém. Gabriele, o "Príncipe", por exemplo, enquanto vivia na democracia de Ciro, estava, na realidade, a trabalhar para a família Savastano mas sempre quis usufruir daquilo que o "trabalho" lhe proporcionava, comprando grandes "macchinas" ou uma pantera para oferecer à sua namorada. "Princípe" ousou sonhar e no final do 7º episódio, don Ciro deu-lhe permissão sonhar eternamente, espetando-lhe uma bala na testa a sangue-frio.

No último episódio da 2ª temporada, Pietro Savastano consegue, finalmente, limpar a concorrência e reclamar para si novamente o bairro Secondigliano* como seu. Colocando todas as acções na balança que don Pietro utilizou para conquistar esta vitória, talvez a violência tenha pesado mais, mas as "ofertas" também tiveram um papel bastante importante, principalmente no que toca a condicionar elementos fora do bairro e mais institucionais, como polícias e políticos. Sim, conquista o poder quem já tem mais poder, eis o paradoxo que tanto vale para a ficção como para a vida real e que Bruno de Carvalho tão bem já deve ter percebido.


Não é por acaso que BdC tenha tido mais problemas com presidentes de clubes (Arouca, Marítimo...) em 3 anos do que Luís Filipe Vieira em 13. Na LFPF, vive-se de joelhos, à espera de esmolas. Não há ambição. Ninguém sonha. Sonhos no futebol português, só na Taça. Na LFPF, só se sonha ganhar ao Sporting e, em certa medida, ao Porto. Contra o Benfica, é derrota garantida. Seja através de ameaças ou de ajudas, a verdade é que LFV conseguiu ganhar o controlo do bairro "Secondigliano" e não há ninguém que o desafie (excepto BdC, o "Ciro"). A bonomia com que os clubes mais pequenos defrontam o Benfica é a maior conquista de LFV no "tugão". Tal como a Juventus em Itália. Os empréstimos, Miguel Rosa, compras de bancadas, compras de passes, oferta de receitas, treinos no Seixal... tudo ofertas que ninguém pode recusar.
















*Na última cena do último episódio, o perigoso Ciro (no sentido que não tinha nada a perder), emboscou don Pietro e assassinou-o à queima-roupa. Resta esperar pela 3ª temporada se Ciro recuperará Secondigliano ou se as raízes (o filho, Genny) que Savastano deixou no bairro cresceram o suficiente para (lhe) deixar o poder intacto...


Juventus vs Gazzetta dello Sport

Googlei por "jornalixo" e a segunda imagem que apareceu, é do excelente blog "Mister do Café"! :)



A Juventus negou as acreditações dos 2 jornalistas da Gazzetta dello Sport destacados para reportar o jogo de sábado entre o campeão italiano e o Pescara. Isto seria, mais ou menos, como se o Porto negasse a entrada dos jornalistas d'A BOLA no estádio do dragão. Dei o exemplo do Porto porque a Gazzetta é de Milão (e, naturalmente, mais pró-Inter/Milan) e a Juventus é de Turim. Mas se excluirmos o aspecto geográfico, o exemplo podia muito bem ser o Sporting negar a entrada a jornalistas d'A BOLA (pró-lampiões). E que fez o jornal italiano de tão grave para chegar a esta reação do clube italiano?

No passado dia 4 de novembro, a Gazzetta dello Sport veio a público com uma história acerca do discurso de Buffon, o mítico guarda-redes da Juventus,  no balneário, logo após a vitória magra e difícil sobre o Nápoles (2-1). Dizia a Gazzetta que Buffon teria dito aos seus colegas que "Na Serie A podemos descansar, na Europa não."


A Juventus reagiu prontamente, negando que Buffon tivesse dito tais palavras mas a Gazzetta manteve a história e ainda explicou melhor a notícia: "Quanto ao verbo "descansar" que gerou tanta controvérsia, referia-se à diminuta convicção das outras equipas quando estas defrontam a Juventus, devido à superioridade 'bianconera' que, inconscientemente, é reconhecida pelos adversários."

Basicamente, o que a Gazzetta queria dizer é que os clubes italianos quando jogam contra a Juventus, já vão a priori com a derrota no pensamento e que, por isso mesmo, jogam de forma mais relaxado do que quando jogam contra o Inter ou Milan, por exemplo. Faz lembrar outro campeonato do sul da Europa?


Seja qual for a razão, o que quero fazer notar é quão "simples" foi o argumento que a Juventus utilizou para impedir 2 jornalistas do mais reputado jornal desportivo italiano de entrarem no seu estádio. Se os dirigentes do Sporting tivessem um oitavo da sensibilidade dos dirigentes da Juventus, no próximo jogo em Alvalade não estaria nenhum jornalista português.

João Mário, um dos melhores para a Gazzetta dello Sport no derby Milan 1-1 Inter

João Mário, um dos melhores para a Gazzetta dello Sport [Candreva, o melhor, com nota 7].


"Ei-lo, o "trequartista". Mas moderno: não fica parado, sempre à procura da melhor posição. Óptimas ideias mas um defeitozinho: remata pouco quando tem oportunidade para tal"




15 de novembro de 2016

"Títulos de Campeão Nacional de futebol" - Escrevem os leitores [jornal Record]

"Muito se tem discutido a questão dos "títulos" nacionais no futebol ao longo dos últimos tempos e ontem fomos brindados com uma capa do jornal "A Bola" que em vez de esclarecer, apenas vem adensar a polémica. Penso que o vosso jornal, na minha opinião o mais isento dos três jornais desportivos diários, poderia prestar um bom serviço a toda a comunidade que se interessa pelo tema e esclarecer definitivamente as pessoas, pois o que está em causa é essencialmente uma questão de português e da sua correcta interpretação.
E a questão é muito simples. Tudo depende do que se está a analisar, pelo que existem várias interpretações legítimas da contabilização dos "títulos".
Mas primeiro, alguns factos incontestáveis à luz da história:
1) O vencedor do Campeonato de Portugal foi sempre considerado à época, até à sua SUBSTITUIÇÃO, o campeão de Portugal, ou seja, o campeão nacional.
2) A I Liga, apesar de experimental (no sentido de aferir a viabilidade um campeonato de todos contra todos e esse campeonato passar a atribuir o título de campeão de Portugal) não deixa de ser uma competição oficial, e como tal deve contar para o palmarés dos seus vencedores;
3) O vencedor da I Liga, durante a sua curta existência, não recebia o título de Campeão de Portugal, mas apenas de campeão da I Liga, tendo a mesma ACABADO em 1938.
4) O título de Campeão de Portugal apenas passou a coincidir com o vencedor da Liga a partir da época 1938/39.
Estes factos estão atestados por actas da própria FPF:
Criação da I Liga em 1934 - "promover a título experimental o Campeonatos das Ligas, 1.ª e 2.ª Divisões, sem prejuízo dos Campeonatos Distritais, nem do Campeonato de Portugal";
Criação do actual Campeonato em 1938 - "acabar com os Campeonatos das Ligas e substituir o Campeonato de Portugal das jornadas em sucessiva eliminações, por um campeonato de maior rigor e regularidade, pelo sistema de "poule" em duas voltas".
Reparem bem nesta última Acta. O que é substituído é o Campeonato de Portugal e não o Campeonato das Ligas, o que é inequívoco acerca de qual a competição que até então atribuía o título de campeão nacional, o campeonato de Portugal. Caso fosse a então I Liga, então seria esta a ser substituída e não a acabar, como sucedeu.
Estes factos são indesmentíveis à luz da história, sendo totalmente descabido um revisionismo mais de meio século depois, apenas porque o formato da competição era X e não Y. Esse argumento é totalmente inaceitável, até porque há imensas competições que já atribuíram o mesmo título em diversos formatos (competições europeias e mundiais (mesmo de clubes), diversas modalidades (sistemas de playoff), escalões de formação, etc.), além de existirem países que contabilizam os seus campeões nacionais de futebol independentemente do formato da competição, mas sim com base no que era então convencionado. E em Portugal, desde 1921 até 1938, estava claramente convencionado qual a competição que atribuía o título de Campeão de Portugal. Era uma convenção aceite por toda a comunidade à época, pelo que tentar alterar, mais de meio século depois, o que as pessoas sentiam e aceitavam então, é totalmente inaceitável.
Isto não significa que não se considere mais justo um vencedor de uma Liga do que um sistema a eliminar. De facto, essa opinião é totalmente legítima, não pode é, só porque é mais justo, passar a ser mais de meio século depois o que não era então. De facto já na altura alguns defendiam que o campeão nacional deveria ser o campeão da Liga e não o vencedor do Campeonato de Portugal, mas isso, não passava de uma opinião, sem a necessária sustentação administrativa por parte da FPF. É exactamente o mesmo que defender uma alteração qualquer legislativa. Até pode existir unanimidade acerca da mesma, no entanto a mesma só passa a ser lei depois de aprovada nos órgãos competentes. E foi o que aconteceu também neste caso. Com base nessa "justiça", considerando que o Campeão Nacional deveria ser encontrado através do sistema de Liga, em 1938 a FPF, após 4 anos de experiência, decide passar a atribuir o título ao vencedor da nova liga então criada SUBSTITUINDO O CAMPEONATO DE PORTUGAL.
Ora perante este novo cenário, tratando-se de uma nova competição e tendo em conta que o campeão de Portugal se passou a apurar num sistema diferente do que acontecia até então, a generalidade da imprensa decidiu separar todos estes títulos (Campeonato de Portugal, I Liga e Campeonato Nacional), contabilizando-os separadamente até meados dos anos 2000. É fácil ver nos vossos registos e publicações isso mesmo.
Portanto, o que não se entende (porque está historicamente errado) é adicionar os títulos da I Liga aos títulos do campeonato nacional e designar os mesmos de "campeão nacional", pois não é a mesma coisa. Isto foi erradamente aceite pela imprensa desportiva a partir de meados dos anos 2000, mas constitui uma imprecisão histórica que deve ser esclarecida, até porque durante mais de 60 anos tudo era contabilizado distintamente, e sem polémicas.
E mesmo que isto, em determinado momento, tenha sido aceite pela FPF, é dever da imprensa desportiva resgatar a verdade histórica, pois, pura e simplesmente, esses títulos não podem ser, 60 anos depois, o que não eram então, mesmo que um qualquer órgão o delibere agora. Isso sim é revisionismo. É o mesmo que o parlamento alemão decretar que o Holocausto não existiu. Até poderia haver unanimidade, mas isso mudava o que de facto aconteceu?
Ou seja, voltando ao início, respeitando a história, tudo não passa de uma correcta aplicação do português.
Assim, se estivermos a falar de títulos de "campeão da Liga", efectivamente a contabilidade dos três grandes é a seguinte:
SLB - 35
FCP - 27
SCP - 18
devendo neste caso ser ressalvado que três dos títulos do SLB, bem como um do FCP, foram da I Liga (1934 a 1938),aos quais não correspondia então o título de campeão nacional.
Caso estejamos a falar de títulos de "campeão nacional", a contabilidade é a seguinte:
SLB - 35
FCP - 30
SCP - 22
devendo neste caso ser ressalvado que três dos títulos do SLB, bem como quatro do FCP e do SCP, foram do Campeonato de Portugal (1921 a 1938), prova em sistema de eliminatórias que foi substituída em 1938/39 pelo Campeonato Nacional.
Tudo isto, porque durante 4 anos, efectivamente, a Liga não atribuiu o título de "campeão de Portugal", mas apenas de vencedor da I Liga, cabendo o título de "campeão de Portugal" ao então vencedor do Campeonato de Portugal.
Devido a todo este historial, e perante um novo sistema instituído em 1938/39, no qual, pela primeira vez, o campeão da Liga (então designado Campeonato Nacional), passa a ser considerado o Campeão Nacional, a generalidade da imprensa decidiu contabilizar tudo separadamente, considerando apenas como campeão nacional os vencedores do campeonato nacional a partir de 1938/39. Apesar de não ser a mais correcta interpretação sob o ponto de vista histórico, como se viu atrás, foi de facto uma decisão salomónica, e que na verdade, durante mais de meio século, não mereceu grande contestação. Sob este prisma a contabilidade é a seguinte:
SLB - 32
FCP - 26
SCP - 18
Como referi anteriormente, durante mais de meio século, esta última contabilidade sempre foi relativamente pacífica, até que em meados dos anos 2000, decide-se alterar, e, imagine-se!, da pior forma, ou seja, considerando os títulos da I Liga, ao invés dos títulos do Campeonato de Portugal, como títulos de campeão nacional, ao arrepio da história e do que então estava convencionado e era formalmente reconhecido à época pela FPF. Porquê?
Espero sinceramente que o Record, respeitando também a sua história e todas as publicações que lançou ao longo dos tempos e que mais do que sustentam o que transmiti, saiba esclarecer definitivamente a opinião pública sobre o tema, a bem da verdade, e nada mais do que isso.
Dizer, por fim, que contabilizar os títulos do Campeonato de Portugal como títulos da Taça de Portugal, só porque se tratava de um sistema de eliminatórias e a taça era semelhante, é um exercício totalmente absurdo, pois ignora totalmente o contexto à época e as convenções então instituídas. Quem defende isso, demonstra bem o respeito que tem pela história - zero!"

Autores: Adolfo Sapinho


13 de novembro de 2016

#revisiona-mos

A maior supresa da grande "investigação" do jornal A BOLA de hoje é apenas que foi publicada já em novembro e não em maio, logo após mais um título do Benfica (para aumentar a humilhação) ou do Sporting (para retirar brilho). Tudo o resto que vem lá publicado por António Simões (pudera...) é algo que já tinha lido algures num qualquer blog lampião. As "chapas" do troféu da Taça de Portugal, a infame acta da FPF de 1939... já tudo era conhecido.

Apenas registo duas coisas:

- A tentativa, voluntária ou propositadamente, de "colar" a Bruno de Carvalho esta reivindicação do Sporting, quando já desde - pelo menos - 1954, esta questão se colocava.

- A omissão de frases, partes, pequenas peças do "puzzle", como por exemplo esta frase importantíssima do livro de Henrique Parreirão "(...) Federação respondeu, acabando com todas as dúvidas e confusões: São campeões de Portugal todos os clubes que ganharam esta prova, propriamente dita, de 1921/22 até 1937/38 e serão campeões nacionais os clubes que vierem a ganhar a competição, organizada em novos moldes, a partir de 1938/39."


Esta frase, alegadamente proferida pela FPF, "serão campeões nacionais os clubes que vierem a ganhar a competição, organizada em novos moldes, a partir de 1938/39", retira qualquer possibilidade de o Benfica poder - seja em 2005 ou noutra altura - reivindicar os 3 títulos do Campeonato da Liga (1934-1938) como sendo os de "campeões de Portugal" e juntá-los à lista dos 32 títulos de campeões da 1ª Divisão Nacional. Aliás, é o que, justamente, o próprio jornal A BOLA faz hoje! Não junta os títulos:




Agora, a partir do momento em que o Benfica "oficializa" o Campeonato da Liga de 37-38 (mais os de 35-36 e 36-37), acrescentando 3 títulos de uma assentada ao seu palmarés, feriu no orgulho (desportivo) de todos os que participaram nos desafios do Campeonato de Portugal disputados entre 1934 e 1938(39). Esse é o pecado mortal que faz com que o Sporting (e muito bem, digo eu), queira reivindicar os títulos ganhos entre 1921 e 1939. E sobre isto, não tenho mais nada juntar ao que já disse anteriormente.



EDIT:

Quero apenas terminar dizendo que eu não acredito que alguma vez a FPF, Liga, FIFA ou UEFA dêem razão ao Sporting. É algo que já tomo como garantido. É melhor que nos habituemos a isso.Isto faz-me lembrar o que se passa com a Juventus e os seus 32/34 títulos. Como se sabe, em 2006 rebentou o escândalo "Calciopoli", a Juventus foi enviada para a 2ª divisão e foram retirados (pela Liga Italiana) os 2 títulos de campeão ganhos em 2005 e 2006. Oficialmente, a Juventus tem "apenas" 32 títulos mas isso não impede os seus adeptos e o próprio clube de comemorarem e reivindicarem 34 títulos. Eu não concordo com a reivindicação da Juventus mas aceito o direito ao protesto do clube italiano e seus adeptos. E, ao final de contas, é isso que interessa. Quando escrevi este post, fi-lo tendo em mente apenas os adeptos do Sporting, não quis nem quero convencer lampiões. Não é isso que me importa. Eu sei bem em que país vivemos. Sei bem contra quem lutamos. O que me importa é o Sporting e os Sportinguistas, nada mais.

Sporting Sempre.