23 de abril de 2017

Lógica para combater a irracionalidade

Ontem acordei em choque. Sensação a que já me tenho vindo a habituar neste mundo recente, mas que costuma ter razões mais distantes. Desta vez, a loucura extremista foi aqui. Ao nosso lado, com um dos nossos, com a nossa paixão como pretexto. Não é fácil digerir e ao início estava capaz de dizer e fazer tudo. Mas o dia trouxe calma e lucidez: o que aconteceu foi um ato de extremismo irracional. E nestas situações, a história tem ensinado que a pior resposta possível é mais irracionalidade. Infelizmente, é essa que se vê sempre.
Certos argumentos que têm sido lançados, de ambos os lados, são impulsivos, ilógicos e, por isso mesmo, altamente perigosos. Não se pode generalizar um ato isolado, não se pode pôr na mesma discussão assassinatos intencionais e acidentais. Não se pode dizer que a culpa é de quem provoca, que se não estivessem lá não acontecia, que quem anda à chuva molha-se, etc. Calma. É suposto vivermos numa democracia desenvolvida em que matar alguém não é aceitável independentemente do motivo. É que parece que toda a gente se esquece dos seus princípios quando há futebol à mistura. Se fosse um homem a matar a mulher por o ter traído, também se desculpava e desvalorizava? Ou a velha história da menina da minissaia não se poder queixar da violação… Temos de ter cuidado com o que dizemos. O que eles estavam lá a fazer é importante de averiguar e nem tenho problemas em dizer que adivinho que não será coisa boa. Mas é um assunto à parte, que nunca poderá tornar aceitável matar alguém. Porque nada torna.
Por outro lado, tentemos esforçar um bocadinho mais a lógica no que às razões para este ambiente tenso no futebol português diz respeito. Há que ter ponderação e pensar duas vezes antes de atirar bitaites. Eu não posso falar pela população em geral, mas posso dar a minha visão das coisas: nunca será o que um presidente, um dirigente, ou um comentador diz que me fará gostar mais ou menos de um clube e, muito menos, ser mais ou menos violenta. Se de facto isso acontece, temos de parar para pensar no grave que é as pessoas não terem filtro e consciência para saber gerir palavras. A mim, o que ameaça o meu discernimento é quando alguém impede essas palavras - porque cortar liberdades irrita-me incomparavelmente mais do que qualquer expressão das mesmas. O que me tira do sério é ter a injustiça como norma e, acima de tudo, a ausência de tentativas de explicação e correção. O que me descontrola é a lata, a falta de brio e a sujidade da imprensa. O que me faz perder a cabeça são as voltas que dou às mesmas perguntas, que nunca são respondidas, desde a existência de claques ilegais, aos critérios nas diferentes decisões da Liga, à promiscuidade da Federação. Portanto é fundamental que deixemos de ser os limitados que acham que andamos zangados porque A disse X e B respondeu Y. O foco da crispação é bem mais profundo do que isso e ninguém está isento de culpas – mesmo os que não hesitam em distribui-las: de jornalistas a comentadores, passando por políticos, dirigentes, claques e adeptos, mas acima de tudo as instituições supostamente reguladoras. Enquanto se continuar a achar que a culpa acaba num setor, não avançamos.
Quanto à questão do “incendiário”, sou sincera. Acho que acaba por ser verdade. A chegada de Bruno de Carvalho incendiou o ambiente. Mas não por ele o ter tentado fazer. Simplesmente, antes o Sporting era o esquecido parente simpático que não ameaçava ninguém, por isso nunca entrou na guerra, que acabava por se fazer com 300 km de terra pelo meio. Com ele, o Sporting voltou a fazer parte da discussão, quer do campeonato quer do estado do futebol português, tendo vindo mexer em questões que dava jeito a muita gente que continuassem adormecidas. Daí o Sporting ter voltado a ser visto como o grande rival do Benfica. E nesta guerra, os 300 km passam à largura da 2.ª Circular. Portanto, claro que tudo se torna mais aceso e mais perigoso.
De resto, outra consequência assustadora da irracionalidade com que se reagiu à irracionalidade da madrugada de ontem, foi a normalização do acontecimento: falamos da morte de uma pessoa exatamente da mesma maneira com que falamos semanalmente dos penalties por marcar e das declarações do não sei quantos: os mesmos diretos, nos mesmos estúdios, com os mesmos comentadores; os mesmos comunicados, nas mesmas plataformas; as presenças em zonas mistas, como se se fosse falar de arbitragem; a Liga limita-se a um comunicado, como se fosse mais um dia; a FPF fala à Lusa, sem cara nem voz; a naturalidade com que se continuou  a falar dos onzes, dos autocarros, da caixa de segurança e depois, de como o jogo decorreu. Penso que se pedia muito mais do que isto. O que se passou ultrapassa o futebol. Há um filho a voltar sozinho a casa. Seria de esperar mais choque, mais contenção e mais respeito. Não foi um fora-de-jogo. Não é para os comentadores de futebol falarem. É para ser pensado e estudado a outros níveis da sociedade. É um caso de polícia, não de árbitro. E tudo isto fez com que parecesse que estávamos a falar só de um estalo ou de mais dos mesmos desacatos…. Morreu alguém. Não se pode tratar como se fosse normal.
Por fim, no culminar de um dia pesado, na zona mista de Alvalade, deu-se o expoente máximo da irracionalidade de ontem. E gosto de acreditar que se tratou de irreflexão e precipitação, mesmo que tenha tido um dia inteiro para refletir, porque neste momento nem tenho cabeça para enfrentar o facto de alguém que pense mesmo o que foi dito ser seguido por 6, ou 14, ou lá quantos são, milhões de pessoas. Que, mais uma vez, não ia ser capaz de se demarcar das loucuras das suas claques (mesmo que não queiram associar uma claque ao assassínio, houve sempre as celebrações do mesmo durante o jogo), já eu sabia. Mas o que veio a seguir, foi verdadeiramente chocante. Da boca do presidente do Sport Lisboa e Benfica saíram as palavras “provocação gera violência”. Assim. Em frente aos microfones, em direto para a televisão. Sem pudor. Alguém morreu. Um filho voltou sozinho para casa. Mas o que o presidente do Sport Lisboa e Benfica se lembra de dizer é que ele provocou. Como é que o senhor cartilhas teve coragem de dar a cara para dizer uma barbaridade destas, não sei. Mas sei que isto me afeta muito para além do futebol. Que ele e toda a gente que pensa assim entendam que a provocação gera violência em animais que não se sabem controlar, não em humanos que vivem em sociedade. Que o que mata não é a provocação, é a loucura fanática de bestas incapazes de pensar para além de chavões selvagens como “provocação gera violência”. Se acho que do ato isolado de um benfiquista não se pode generalizar, das palavras do presidente da instituição, a questão é outra. Ontem, tornou-se público que a posição oficial do Sport Lisboa e Benfica é que vale matar, se houver provocação. E assim cai no seu presidente responsabilidade por todas as violências em resposta a provocações que possam existir daqui para a frente, porque em direto, para as televisões, legitimou um assassínio.

Mas então o que fazer para melhorar a situação? A meu ver, em primeiro lugar, recuperar legitimidade e autoridade para o edifício do futebol português. Sem isso, nada será possível. Depois, parece-me hora, se bem que a mim já me parece há algum tempo, para a política parar de fingir que não se mistura com o futebol, porque se isto tudo fosse “só um jogo” não acabava em sangue. São necessárias medidas democráticas, independentes e sérias que neste momento a tutela não dá. Por outro lado, sem me querer repetir, é urgente legalizar as claques, nem que seja pela ideia de impunidade e amadorismo que é passada. Claro que, idealmente, também era necessária uma comunicação social isenta, briosa e pedagógica, focada no melhor que o futebol tem, nas histórias incríveis que há para contar, em tudo o que de positivo nos pode ensinar, mas isso, sinceramente, não acho possível. Por fim, é urgente haver debate público, que permita fazer progressos no sentido da educação para o desporto e para o civismo em Portugal. E não sejamos infantis, para esse debate não é preciso os presidentes gostarem um do outro nem partilharem tribunas. Adultos sérios sabem trabalhar com pessoas de quem não gostam e com quem têm historial. Simplesmente, por vezes não querem.