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13 de setembro de 2015

Nada lá fora, penalty cá dentro

Há muito tempo que penso nisto mas foi preciso um jogo de um campeonato espanhol para me fazer escrever sobre isto: muita da "iliteracia futebolística" dos adeptos portugueses é culpa dos narradores/comentadores de futebol. A estes exige-se que conheçam, de frente para trás, os regulamentos e leis do futebol. É naqueles cinco segundos imediatos ao lance duvidoso que o juízo "final" é feito pelo narrador/comentador de serviço: "Penalty que o árbitro não assinalou" ou "Penalty mal assinalado". São eles, para o bem e para o mal, que definem que tipo de debate iremos ter na próxima semana nos mais variados debates futebolísticos, seja no trabalho, esplanada ou estúdios de televisão.

Os narradores/comentadores portugueses são como os árbitros portugueses ou como os adeptos portugueses: uma merda. Por exemplo, lembro-me de ouvir montes de vezes o Pedro Henriques, ex-jogador do Benfica e actual comentador da Sporttv, quando ele comentava jogos da Liga Inglesa, a defender que certo lance num Chelsea-Leicester, por exemplo, não era "nada" e que o árbitro fez muito bem em não assinalar falta ou dar amarelo. Mas quando o ouvimos a comentar um Paços de Ferreira-Benfica, subitamente, esse lance que não era "nada" em Stanford Bridge, passa a ser merecedor de "falta e cartão e amarelo" na Mata Real. As regras e leis do futebol não mudaram, o comentador não mudou, mas o critério mudou. Porquê? Porque o futebol da #LigaMickeyMouse portuguesa tem as suas idiossincrasias e que modifica a "psique" de todos os seus agentes: jogadores, árbitros, jornalistas, adeptos e por aí fora. É por isso que os jogadores portugueses caem menos quando jogam lá fora, que os árbitros são menos condescendentes quando apitam jogos da UEFA e porque os jornais desportivos escrevem na primeira página "ROUBO" quando o Sporting é prejudicado contra o Schalke e escrevem "HINO AO FUTEBOL" quando o Sporting é roubado na Luz.

Ontem, quando via a segunda parte do Atlético de Madrid-Barcelona (não vi quase da primeira parte), ocorreram dois lances de "mão na bola", segundo os narradores/comentadores da Sporttv. Vi um com muita atenção, o lance do remate do Neymar ao braço do Godin. Repito, remate do Neymar ao braço do Godin, não mão na bola após remate do Neymar. Para os narradores/comentadores da Sporttv, era penalty claríssimo e, possivelmente, vermelho para o Godin. Isto a juntar aos outros 3 penalties ou livres não assinalados anteriores por "mão na bola". É então que os ouço a catalogar a arbitragem de Mateu Lahoz como sendo "péssima" e outros adjectivos semelhantes. Bom, deve estar a ser uma arbitragem de merda, pensei eu. Mas hoje leio esta crónica sobre a arbitragem de ontem no jornal AS, suponho que escrita por um ex-árbitro espanhol ou alguém especializado no meio.




"Houve quatro 'mãos', mas acertou em não assinalá-las como penalty"




Os narradores/comentadores portugueses são, geralmente, uma merda. Não sabem as regras detalhadamente, são arrogantes e aborrecidos. Contudo, são muito, muito perigosos. Fazem lembrar os fiscais de linha que conseguem passar entre os pingos da chuva ao mesmo tempo que cometem as piores atrocidades vistas em campos de futebol. Cuidado, muito cuidado com eles.

12 de fevereiro de 2015

Pós-derby (dentro de campo)

Ontem pus-me ver os últimos minutos do Chelsea – Everton, porque sabia que estava 0-0 e haveria de ser um final de jogo electrizante, como acabou por ser. Um jogador do Everton leva o segundo amarelo aos 87m e no livre subsequente, o Chelsea marca golo. Aos 88m. Comemorações dos jogadores, loucura nas bancadas e a realização mostra-nos o banco do Chelsea: Mourinho comemora o golo durante 3 segundos e, de imediato, aponta para o local onde estavam os suplentes a aquecer e chama um jogador para (não permitir) jogar os últimos 5/6 minutos de jogos. O jogador chama-se Cahill, é defesa central, e entrou para substituir o marcador do golo, Willian, juntando-se aos outros 2 defesas centrais para combater o previsível chuveirinho do Everton. O Chelsea ganhou o jogo 1-0.




Sobre o derby, que dizer? Lembro-me que, instantes antes do golo de Jefferson, estavam preparados para entrar o Capel e o Tanaka e julguei que Marco Silva, depois do golo, iria, obviamente, mudar de ideias e fazer entrar alguém para ajudar a defender o resultado (Rosell ou Sarr). Mas não. Primeiro entrou o Tanaka e depois o Capel. Metade da equipa julgou que era para atacar o 2-0 e a outra metade ficou a defender o 1-0. Resultado? 1-1. A seguir aos “olés”, essa decisão de Marco Silva foi a coisa que me mais chateou. O empate não foi azar, foi aselhice, o que é diferente. Enough said.

De realçar também o Benfica mais "benfiquinha" em Alvalade dos últimos dez anos. Isto de jogar contra equipas grandes e sem colinho é mais difícil... como se pode provar pela brilhante carreira deles na Liga dos Campeões nos últimos cinco anos. Sempre a levar na pá.


Temos, finalmente, uma dupla de centrais de equipa “grande”, isto é, ambos altos, ágeis e suficientemente rápidos para permitir que possamos jogar no meio-campo adversário sem termos de nos preocupar muito com contra-ataques rápidos e bolas lançadas nas costas da defesa. Qualquer equipa de “top” e ganhadora tem de ter, pelo menos, um defesa central alto, ágil e rápido. Se tiver dois então, perfeito. Mas tem de os ter durante 5, 6 anos. Só assim dá resultados.

 Chiellini e Bonucci, “zaga” da Juventus (prestes a ser) tetra-campeã em Itália, Puyol e Piquet, eternos campeões no Barcelona, Pepe e Ramos, em pico de forma, foram campeões no Real, Miranda e Godín no campeão espanhol, o intratável Atlético de Madrid, Thiago Silva (no Milan que ainda ganhava algo e agora no campeão PSG), Kompany no Man. City, Hummels no Dortmund ou mesmo o Luisão do Benfica. Veja-se, por exemplo, a decadência do Man Utd pós Ferdinand-Vidic.

Tobias e/ou Oliveira têm de ficar no Sporting, pelo menos, mais 3 épocas. Acreditava e ainda continuo a acreditar que Ilori tem tudo p’ra ser um central de “top” mas começo a perceber que lhe falta algo a nível mental, competitivo. Dier, ainda tenho dúvidas se para a próxima época ele irá contar ou não como “home grown player” na Liga Inglesa… Se contar, ficará explicado, definitivamente, a sua vontade em sair do Sporting tão bruscamente. De qualquer forma, entre Tobias e Dier, prefiro Tobias – é mais rápido e mais agressivo, mas Dier passa melhor a bola. Maurício nunca seria um defesa central de “top”.

Portanto, a decisão mais importante relacionada com o plantel do Sporting a ser tomada durante os próximos anos terá de ser, sempre, manter e não vender Tobias e Oliveira. Um destes 2 terá de ser o “nosso” Puyol. Não sou arquitecto nem treinador mas sei que é por baixo que se constrói uma casa ou uma equipa.

Depois, vamos perder Nani e, de certeza, um destes dois: William ou João Mário. Basta ver a primeira-fila durante a apresentação do livro do Jorge Mendes para perceber que eles (Adrien também mas menos) serão os “próximos na lista”. Com o dinheiro resultante da venda, acredito que encontraremos um substituto à altura.

Quantos golos tem o Adrien marcados esta época? Dois? Três? E mesmo assistências? Um punhado delas, talvez? É muito, muito pouco para um médio que joga naquela posição. A equipa do Sporting está a subir, ano após ano, de rendimento e estatuto e aquilo que Adrien oferece começa a ser além do exigível… Gosto imenso do Adrien, do facto de ser da formação e do Sporting mas… Onde está o Wally(son)?

Também deve ter sido prometido ao Slimani que poderia sair no final da próxima época mas começo a duvidar que apareça pretendentes oferecendo um valor mínimo aceitável pelo Sporting.

Resumindo, se “apenas” perdermos William (mas contratarmos um substituto à altura) e Nani e mantivermos o resto do plantel e treinador, tendo em conta os trintões do Benfica e incorporação de (muita) gente nova, presumível saída de JJ, a saída anunciada de Jackson Martínez e Brahimi (e Danilo?) do Porto e dos regressos de alguns emprestados aos clubes de origem, creio que sim, será na 3ª época que seremos, realisticamente, candidatos ao título.

Apesar das palavras de incentivo e dos estúpidos pontos perdidos em casa, nunca acreditei verdadeiramente que seríamos campeões esta época. Mesmo que não tivéssemos empatado esses jogos, haveria algo mais a empatar-nos. Mas não deixa de ser uma pena que não tenhamos aproveitado melhor o impacto de Nani esta época… seria épico se ele saísse daqui campeão.

(a ver se também escrevo algo sobre o derby fora do campo)

4 de outubro de 2014

Reabilitação

Lembro-me de uma "grande reportagem" transmitida na SIC há uns anos (2001, parece), onde um jornalista acompanhou, in loco, os cerca de quinze dias que Pedro, toxicodependente há dez anos, passou fechado num quarto a curar a "ressaca", naquele que seria o primeiro - e mais importante - passo rumo à sua desintoxicação e consequente reabilitação.

O que o Sporting fez no último ano e meio foi uma cura de "ressaca". 

Com a eleição de Godinho, julgou-se que a forma mais fácil de atingir a felicidade, o "nirvana", isto é, ser campeão nacional (ou pelo menos, chegar à Champions), seria através da "injeção" de capital dos fundos na aquisição de substâncias fortes (leia-se, jogadores "consagrados") que permitissem, de imediato, ficar com uma moca descomunal e ir celebrar para o Marquês. Ora, o que aconteceu logo nesse primeiro ano foi, precisamente, a segunda coisa que se mais teme quando se tomam drogas: uma bad trip. A primeira é uma overdose.


Se, na primeira época, aquela viagem que passou por Bilbao e terminou no Jamor com uma derrota coincidente com a primeira vitória de sempre da Académica na final da Taça de Portugal (e com Adrien e Cédric no lado dos estudantes ainda por cima...), pareceu uma bad trip, já a segunda época do Sporting de Godinho, Duque e Freitas, foi mesmo uma overdose quase fatal. Iniciou-se a época com o ecstasy de Sá Pinto, passámos para o Xanax do Oceano e Vercauteren e terminámos com o Viagra do Jesualdo Ferreira, com um Sporting ligado à máquina e colocado num sétimo lugar da lista de espera da UEFA, condenado ao esquecimento.







Felizmente, apareceu esta nova direção e que, pelo punho de Bruno de Carvalho, cravou uma seringa carregada de adrenalina bem no meio do coração do leão e injectou a necessária força vital para que o Sporting se reerguesse e rugisse de novo. 

O primeiro ano foi tão ou mais duro do que a tal reportagem do Pedro. Cortou-se metade do orçamento anual, despediu-se funcionários, jogadores e dirigentes. Pedro, durante a tal cura "de ressaca" continuou a fumar cigarros. O Sporting nem cafés bebeu na última época. Pão e água, apenas. E mesmo assim, conseguimos chegar à Liga dos Campeões.

Esta época, falta dar o passo seguinte, sair de casa e arranjar um emprego, isto é, ganhar um título. E é por isso que me faz muita confusão ler e ouvir certos Sportinguistas subscreverem e receitarem novos-velhos métodos de "cura" para este Sporting. Para esses, a cura passava por comprar dois ou três "craques" com os tais quinze milhões que o Sporting gastou esta época para comprar nove ou dez jogadores. E os ordenados? Os vícios? Quem os pagava? A mãe e o pai do Pedro que já não têm mais anéis nos dedos para vender? O clube que já não tem estádio nem terrenos para vender?

Continuando a reabilitação, candidatámos-nos a um lugar numa grande multinacional estrangeira, liderada pelo melhor executivo português do ramo. Na passada terça-feira fomos à entrevista de emprego, bem preparados, bem vestidos e muito, muito confiantes. Poderiam ocorrer duas situações:

- À medida que o tal executivo disparasse as perguntas pertinentes sobre a nossa real capacidade de corresponder às suas expectativas, entrarmos em pânico, começássemos a transpirar e bloqueássemos completamente, com a única fuga possível sendo o quarto onde iniciámos a "cura".

- À medida que o tal executivo disparasse as perguntas pertinentes sobre a nossa real capacidade de corresponder às suas expectativas, sentirmos-nos mais confiantes, começando a entrar em diálogo com o executivo, ao ponto de terminarmos a entrevista com mútuos sorrisos e cumprimentos.


Desta vez, não aconteceu nem uma nem outra. Aconteceu uma terceira hipótese, menos provável na vida de um ex-toxicodependente. O executivo deixou o seu cartão e disse: "Liga-me um dia destes." 


Dia 10 de dezembro vou-te ligar, José. Conta comigo.